terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Proteção Radiológica

Fonte: http://www.cbr.org.br/

 

Qual tipo de exposição à radiação é considerado perigoso à saúde?

As radiações ionizantes podem ser eletromagnéticas, tais como os Raios-X, utilizados nos equipamentos de radiodiagnóstico, ou gama, que é empregada em Medicina Nuclear. Algumas aplicações terapêuticas utilizam feixes de partículas como exemplo o tratamento de câncer de tireoide feito com partículas beta.
Quando as radiações são utilizadas em baixas doses de radiação, não apresentam riscos para a saúde dos pacientes e dos operadores. Por outro lado, o aumento excessivo da dose de radiação e da energia do feixe aumenta também o risco, principalmente para pacientes pediátricos, dez vezes mais sensíveis à radiação em comparação com um paciente adulto. Pacientes pediátricos submetidos à tomografia com protocolos similares aos utilizados em adultos podem ter aumentado o risco de efeitos deletérios. Porém, é importante ressaltar que a realização de tomografia em crianças com baixas doses não compromete o diagnóstico, aumentando-se apenas o ruído da imagem, com baixos riscos.

Que tipo de radiação oferece mais perigo à saúde humana?

Em termos de riscos a saúde, não se recomenda realizar procedimentos com radiação em mulheres em período gestacional. O risco é maior para o feto no primeiro trimestre. Caso haja urgência na realização de procedimentos em mulheres grávidas, existem formas de alternativas de proteção, porém o médico radiologista deverá ser consultado antes da realização do exame.
Não é efetivamente necessário o afastamento de trabalhadoras em período gestacional do trabalho com radiação, porém, de acordo com a norma NR 32, não é permitido a estas trabalhadoras grávidas atuarem com radiação.
Em relação à proteção radiológica dos pacientes, as doses devem ser as mais baixas possíveis. Um procedimento de raios-X de tórax, por exemplo, deveria utilizar técnicas com valores de 120 kVp com o menor mAs, entretanto é comum serem executadas técnicas com baixo valor de kVp (70-80) e excessivo mAs (20-40), aumentando significativamente a dose de radiação em pacientes, inclusive além dos limites estabelecidos pela ANVISA. É recomendável que pacientes e eventuais acompanhantes de sala recebam uma proteção de chumbo de forma a minimizar a exposição de radiação.

Onde os trabalhadores podem ficar mais expostos? Quanto tempo de exposição para ter algum tipo de doença relacionada?

Os procedimentos de radiologia intervencionista, exames de hemodinâmica e oncológicos com PET/CT são os que apresentam maiores valores de exposição à radiação. Entretanto, para estes profissionais, considerando-se os limites de doses inferiores a 20 mSv (mili Sivert) ao ano, é baixo o risco de doenças associadas a radiação. No que concerne ao tempo de exposição, a norma limita-se a valores de dose equivalente a 100 mSv em 5 anos. A atual legislação limita em 24 horas semanais de trabalho para os técnicos de radiologia. Esta limitação, que visa proteger os trabalhadores da exposição excessiva à radiação, era justificada quando as condições de segurança eram precárias, os filmes de base azul utilizados requeriam um excesso de dose, não havia programas de controle de qualidade, dentro outros. A situação atual é bastante diferente quanto à proteção radiológica, e, talvez, as resoluções da categoria profissional quanto à limitação de horas devesse ser revista, principalmente devido ao número de trabalhadores que executam suas atividades profissionais em diversas instituições, e que certamente ultrapassam a carga horária semanal. Recomenda-se para estes trabalhadores ter um registro próprio de dose, com a somatória da radiação recebida nas diversas jornadas de trabalho. É dever das instituições informar por escrito os valores de dose dos trabalhadores. Valores acima do limite mensal requerem investigação, e os trabalhadores não necessitam ser afastados de suas atividades, desde que a somatória de dose não ultrapasse os valores estabelecidos com doses de radiação.

Quais os principais malefícios à saúde do trabalhador em curto, médio e longo prazo?

Efeitos determinísticos decorrentes da radiação (catarata, eritema, perda de fertilidade, etc.), não são observados para os trabalhadores para esta faixa de energia utilizado no radiodiagnóstico. Efeitos estocásticos (acumulativos), tais como o câncer, são muito pouco prováveis. Respeitando-se as normas de proteção bem como os 20 mSv anuais, não são observados efeitos biológicos das radiações ao trabalhador. Estudos indicam que a incidência de câncer em trabalhadores com radiação, é a mesma de que trabalhadores que não são expostos à radiação ionizante.

Como se proteger da radiação?

A forma mais eficaz de proteção ainda é a distância da fonte emissora de radiação. Por exemplo, um equipamento de raios-X portátil, operando em UTI, considerando-se uma distância de 2,5 m do aparelho ou do paciente, equivale a um biombo de chumbo, e, portanto não é plausível que as equipes de enfermagem entrem em pânico ou corram quando são executados estes procedimentos no leito do paciente. Outra forma importante é a blindagem, seja através de aventais de chumbo ou de biombos. Fisicamente, a proteção radiológica dos trabalhadores é em função da radiação espalhada no paciente, e, portanto, a forma adequada de proteção é a utilização de colimadores para a limitação do feixe de Raios-X. Em exames de UTI neonatal, sugere-se que os recém-nascidos que precisam ser submetidos a exames radiológicos utilizem a colimação como proteção, tanto do paciente e quanto do operador, e que ele não seja retirado da incubadora ou berço aquecido. Em exames do centro cirúrgico é essencial a colimação para evitar a degradação da imagem pelo espalhamento e a irradiação desnecessária dos trabalhadores. A utilização de técnicas radiográficas com baixos valores de mAs efetivamente reduzem o risco de irradiação de pacientes e trabalhadores. A reutilização de químicos de revelação e o uso de ecrans desgastados e de aparelhos radiológicos descalibrados requerem maior dose de radiação, comprometendo a proteção radiológica.

Quais os principais EPIs necessários? Como eles contribuem para segurança?

Os principais EPIs são os aventais de chumbo, protetores de tireoide e óculos com equivalência em chumbo, e fornecem uma proteção de 90% com relação à radiação espalhada. Outra forma de proteção é a utilização de dosimetros termoluminescentes (TLD), para a verificação da dose do trabalhador. Este dosimetro deverá ser utilizado acima do avental de proteção. Em tomografia de múltiplos cortes, recomenda-se que a enfermagem utilize a proteção de tireoide durante a administração do contraste.

Existem equipamentos mais ou menos confiáveis?

Os departamentos de imagens dos Hospitais passaram por inúmeras dificuldades nas últimas duas décadas, sejam em função de problemas financeiros relativos às fontes pagadoras, variações cambiais, entre outras. Apesar disto, um grande número de tomógrafos, ressonâncias e PET-CT foram importados, e podemos afirmar que estes novos equipamentos são confiáveis, ainda que não existam estatísticas específicas. Entretanto, os antigos tomógrafos foram transferidos para hospitais em pequenas cidades, o que pode comprometer a confiabilidade. Ainda temos uma base tecnológica de equipamentos de Raios-X com mais de 20 anos de uso e que apresentam excesso de dose em pacientes e baixa qualidade de imagens. O problema nem sempre esta relacionado ao tempo de uso. Mamógrafos novos que não tem um efetivo programa de qualidade podem ser categorizados como menos confiável. Portanto os programas de qualidade da ANVISA e CBR são essenciais.

Que tipo de cuidado é necessário para diminuir os riscos?

O maior cuidado para diminuir os riscos aos trabalhadores é o treinamento periódico das equipes, com relação à proteção radiológica, e nos protocolos de aquisição de imagens. Com relação aos equipamentos radiológicos, é frequente que os parâmetros não estejam de acordo com as normas da ANVISA ou até mesmo com as especificações do próprio fabricante. Com o uso de equipamento descalibrado aumenta-se a repetição do exame, o custo, há perda da capacidade operacional e incremento da dose no paciente. Riscos de diagnósticos errôneos em exames de mamografia por deficiência de equipamentos e/ou processos ainda são comuns. Com relação aos equipamentos radiológicos, a aplicação de testes de controle de qualidade é fundamental para a obtenção de exames de qualidade e com baixas doses de radiação. Com relação à proteção radiológica, anualmente os EPI devem ser submetidos a testes de integridade, utilizando-se Raios-X. Em caso de defeitos na manta de proteção, os mesmos devem ser substituídos. A utilização da fluoroscopia é mais indicada para a verificação do avental, porém, caso a instituição não tenha esse recurso, pode-se realizar o teste com o aparelho de Raios-X convencional. Numerar os aventais e indicar em qual o local é utilizado o EPI pode facilitar no trabalho de segurança.

As empresas, clínicas e indústrias oferecem as condições ideais, ou ainda existem casos negativos espalhados pelo país?

Com a introdução das normas de proteção da ANVISA, da Portaria 453, são observadas significativas melhoras nas condições de radioproteção. Isto se deve a uma somatória de ações, como a obrigatoriedade de realização de levantamentos radiométricos nas salas vizinhas às radiológicas, testes de radiação de fuga das ampolas de Raios-X, testes de controle de qualidade dos equipamentos, certificações do CBR, aumento do número de instituições que solicitam certificação da ONA. Estas ações, ainda que não sejam realizadas de forma conjunta, tem possibilitado uma maior segurança para trabalhadores e pacientes. Observa-se também um maior envolvimento de profissionais de segurança do trabalho após a implantação da NR 32, contribuindo-se assim para uma melhora na proteção radiológica. A aplicação de normas de proteção apresenta crescente demanda nos estados da Paraíba, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, com relação à efetividade pela ANVISA. No entanto, estas ações ainda não estão presentes em todos os estados da federação. É frequente observarmos clínicas de ortopedia, mesmo nas grandes cidades, que utilizam Raios-X e que não apresentam condições satisfatórias com relação à proteção radiológica, doses em pacientes e ao controle de qualidade. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) não atua diretamente com Raios-X diagnóstico. Existe por parte deste órgão fiscalizador um controle bastante eficaz no licenciamento de instalações radioativas quanto à medicina nuclear e radioterapia. A CNEN, ao longo dos últimos anos, tem conseguido que as exigências federais sejam atendidas pela maioria dos serviços, em todo o território nacional.

Novos equipamentos são mais seguros?

Em função de um valor cambial favorável, vivenciamos momento de forte incorporação tecnológica, porém ainda não temos a cultura do treinamento profissional para a efetiva utilização de todos os recursos tecnológicos e de normas de segurança. Limitamos apenas aos poucos dias de aplicação, a qual é fornecida pelos fabricantes. Sem as bases conceituais, dificilmente os usuários maximizam os recursos disponíveis. Assim, a segurança somente é obtida pela utilização otimizada da tecnologia, de forma que o profissional tenha condições de evoluir na área para acompanhar as transformações tecnológicas. Sem treinamento ou capacitação compatível, dificilmente teremos uma melhora na segurança.

Os equipamentos são brasileiros ou na maioria importados?

Os equipamentos de grande porte, como ultrassom, tomografia computadorizada, ressonância magnética e aparelhos de medicina nuclear, são, em sua maioria, importados. A indústria nacional realiza esforços para tentar competir com as empresas estrangeiras. Na área de equipamentos de Raios-X e processadoras, em decorrência do preço competitivo em comparação ao importado, a indústria nacional tem avançado. Entretanto, ainda há diferenças significativas para as multinacionais. Talvez o mercado nacional realize parcerias com empresas internacionais para a montagem de equipamentos. Dificilmente teremos investimentos em desenvolvimento tecnológico na área do radiodiagnóstico.

Radioterapia

 Fonte:http://www.inca.gov.br

A radioterapia é um método capaz de destruir células tumorais, empregando feixe de radiações ionizantes. Uma dose pré-calculada de radiação é aplicada, em um determinado tempo, a um volume de tecido que engloba o tumor, buscando erradicar todas as células tumorais, com o menor dano possível às células normais circunvizinhas, à custa das quais se fará a regeneração da área irradiada.

As radiações ionizantes são eletromagnéticas ou corpusculares e carregam energia. Ao interagirem com os tecidos, dão origem a elétrons rápidos que ionizam o meio e criam efeitos químicos como a hidrólise da água e a ruptura das cadeias de ADN. A morte celular pode ocorrer então por variados mecanismos, desde a inativação de sistemas vitais para a célula até sua incapacidade de reprodução.

A resposta dos tecidos às radiações depende de diversos fatores, tais como a sensibilidade do tumor à radiação, sua localização e oxigenação, assim como a qualidade e a quantidade da radiação e o tempo total em que ela é administrada.

Para que o efeito biológico atinja maior número de células neoplásicas e a tolerância dos tecidos normais seja respeitada, a dose total de radiação a ser administrada é habitualmente fracionada em doses diárias iguais, quando se usa a terapia externa.


Radiossensibilidade e radiocurabilidade
A velocidade da regressão tumoral representa o grau de sensibilidade que o tumor apresenta às radiações. Depende fundamentalmente da sua origem celular, do seu grau de diferenciação, da oxigenação e da forma clínica de apresentação. A maioria dos tumores radiossensíveis são radiocuráveis. Entretanto, alguns se disseminam independentemente do controle local; outros apresentam sensibilidade tão próxima à dos tecidos normais, que esta impede a aplicação da dose de erradicação. A curabilidade local só é atingida quando a dose de radiação aplicada é letal para todas as células tumorais, mas não ultrapassa a tolerância dos tecidos normais.


Indicações da radioterapia
Como a radioterapia é um método de tratamento local e/ou regional, pode ser indicada de forma exclusiva ou associada aos outros métodos terapêuticos. Em combinação com a cirurgia, poderá ser pré-, per- ou pós-operatória. Também pode ser indicada antes, durante ou logo após a quimioterapia.

A radioterapia pode ser radical (ou curativa), quando se busca a cura total do tumor; remissiva, quando o objetivo é apenas a redução tumoral; profilática, quando se trata a doença em fase subclínica, isto é, não há volume tumoral presente, mas possíveis células neoplásicas dispersas; paliativa, quando se busca a remissão de sintomas tais como dor intensa, sangramento e compressão de órgãos; e ablativa, quando se administra a radiação para suprimir a função de um órgão, como, por exemplo, o ovário, para se obter a castração actínica.


Fontes de energia e suas aplicações

São várias as fontes de energia utilizadas na radioterapia. Há aparelhos que geram radiação a partir da energia elétrica, liberando raios X e elétrons, ou a partir de fontes de isótopo radioativo, como, por exemplo, pastilhas de cobalto, as quais geram raios gama. Esses aparelhos são usados como fontes externas, mantendo distâncias da pele que variam de 1 centímetro a 1 metro (teleterapia). Estas técnicas constituem a radioterapia clínica e se prestam para tratamento de lesões superficiais, semiprofundas ou profundas, dependendo da qualidade da radiação gerada pelo equipamento.
Os isótopos radioativos (cobalto, césio, irídio etc.) ou sais de rádio são utilizados sob a forma de tubos, agulhas, fios, sementes ou placas e geram radiações, habitualmente gama, de diferentes energias, dependendo do elemento radioativo empregado. São aplicados, na maior parte das vezes, de forma intersticial ou intracavitária, constituindo-se na radioterapia cirúrgica, também conhecida por braquiterapia. No quadro abaixo estão relacionadas as diversas fontes usadas na radioterapia e os seus tipos de radiação gerada, energias e métodos de aplicação.

Fonte Tipo de radiação Energia Método de aplicação
Contatoterapia Raios X (superficial) 10 - 60 kV Terapia superficial
Roentgenterapia Raios X (ortovoltagem) 100 - 300 kV Terapia semiprofunda
Unidade de cobalto Raios gama 1,25 MeV Teleterapia profunda
Acelerador linear Raios X de alta energia e elétrons* 1,5 - 40 MeV Teleterapia profunda
Isótopos radioativos Raios gama e/ou beta Variável conforme o isótopo utilizado Braquiterapia
* Os feixes de elétrons, na dependência de sua energia, podem ser utilizados também na terapia superficial
As unidades internacionalmente utilizadas para medir as quantidades de radiação são o röentgen e o gray. O röentgen (R) é a unidade que mede o número de ionizações desencadeadas no ar ambiental pela passagem de uma certa quantidade de radiação. Já o gray expressa a dose de radiação absorvida por qualquer material ou tecido humano. Um gray (Gy) corresponde a 100 centigrays (cGy).


Efeitos adversos da radioterapia
Normalmente, os efeitos das radiações são bem tolerados, desde que sejam respeitados os princípios de dose total de tratamento e a aplicação fracionada.

Os efeitos colaterais podem ser classificados em imediatos e tardios.
Os efeitos imediatos são observados nos tecidos que apresentam maior capacidade proliferativa, como as gônadas, a epiderme, as mucosas dos tratos digestivo, urinário e genital, e a medula óssea. Eles ocorrem somente se estes tecidos estiverem incluídos no campo de irradiação e podem ser potencializados pela administração simultânea de quimioterápicos. Manifestam-se clinicamente por anovulação ou azoospermia, epitelites, mucosites e mielodepressão (leucopenia e plaquetopenia) e devem ser tratados sintomaticamente, pois geralmente são bem tolerados e reversíveis.
Os efeitos tardios são raros e ocorrem quando as doses de tolerância dos tecidos normais são ultrapassadas. Os efeitos tardios manifestam-se por atrofias e fibroses. As alterações de caráter genético e o desenvolvimento de outros tumores malignos são raramente observados.
Todos os tecidos podem ser afetados, em graus variados, pelas radiações. Normalmente, os efeitos se relacionam com a dose total absorvida e com o fracionamento utilizado. A cirurgia e a quimioterapia podem contribuir para o agravamento destes efeitos.